Sete dias no Atacama: o deserto mais seco do mundo (e a viagem que nos surpreendeu do início ao fim)

0 Shares
0
0
0
0

A gente chegou no Atacama com uma expectativa mediana, sinceramente. Deserto, né? Pensa aquela imagem meio óbvia de areia, sol forte e pouca coisa pra fazer. Pois é. A gente se enganou feio. Foram sete dias, sendo seis de passeio e um dia livre pra curtir São Pedro de Atacama com calma, e cada manhã a gente acordava sem fazer ideia de que o dia seguinte ia superar o anterior. Se você tá pensando em ir, ou só bisbilhotando pra sonhar um pouco, senta que esse post é longo e vai te contar tudo que a gente viveu por lá.

Primeiras impressões de São Pedro de Atacama

São Pedro de Atacama é a cidade base de quase todo mundo que vai explorar o deserto. É pequena, muito fofa, com uma vibe de filme de faroeste: ruas de terra, casas baixas, nada de asfalto ou estrutura de cidade grande. A rua principal se chama Caracoles e é ali que fica praticamente tudo: lojinhas de artesanato, sorveterias, restaurantes e as agências que vendem os passeios.

Uma dica que a gente aprendeu na prática: leve dinheiro em espécie. O sinal de internet por lá é instável e muita coisa (do mercado ao fechamento de passeios) só funciona pagando cash. A gente sacou direto no Chile num caixa eletrônico que fica na praça central, na esquina com a Caracoles.

E a dica de avião, que a gente descobriu antes de virem os primeiros gêiseres: se você tá vindo de São Paulo pra Santiago, pegue um assento do lado esquerdo, poltronas A. Você sobrevoa a Cordilheira dos Andes e a vista do lado esquerdo é surreal, já dá um gostinho do que vem pela frente.

O básico que ninguém pode esquecer

  • Hidratação: mesmo sem sentir sede, beba água o tempo todo. O ar é extremamente seco e a desidratação chega sem avisar.
  • Protetor solar e hidratante labial: em qualquer estação, frio ou calor, a pele sofre muito ali.
  • Roupas em camadas: o Atacama vive de extremos. De manhã pode fazer 5 ou 6 graus e à tarde chegar em 18, 20 graus tranquilamente.
  • Altitude: em vários passeios você vai passar dos 4000 metros. Fica ofegante rápido, mesmo treinando na academia toda semana como a gente treina.

Quanto custa o mercado por lá

Pra quem gosta de se programar (a gente ama), separamos alguns preços do mercado central perto da Caracoles, em pesos chilenos: água de 6 litros por 2.250, café solúvel entre 3.350 e 9.400 dependendo do tamanho, pão tipo croqueta por volta de 100, camarão por quilo saindo a 11.000 (o que, convertido, dava algo em torno de R$ 60 a R$ 70, um preço ótimo), e os famosos chocolates locais Senú e Trencito, que viraram nosso vício ali. Se você é chocólatra como a gente, procura esses dois.

Dia 1: Vale do Arco-íris

Nosso primeiro passeio foi pelo Vale do Arco-íris, e a primeira parada é um lugar chamado Ervas Buenas, onde se paga uma taxa de 5.000 pesos por pessoa. É uma caminhada de cerca de uma hora, a cerca de 3.200 metros de altitude e uns 50 km de São Pedro. No caminho o guia mostrou plantas medicinais (dá pra entender de onde vem o nome do lugar) e gravuras em pedra com quase 6.000 anos, feitas por povos antigos que passavam por ali: representações de lhamas, raposas, coelhos e até figuras que os pesquisadores acreditam ter significado xamânico.

Depois vem a parte que dá nome ao passeio: o vale em si, com uma fenda de rocha que leva até a chamada cascata seca, um paredão onde a água escorre só na época de chuva. Cada montanha tem uma cor diferente por causa dos minerais da região (a cordilheira Domeyko é literalmente o que movimenta a economia mineral do Chile), então você vai passando por trechos avermelhados, esverdeados, e tudo isso emoldurado por um silêncio absoluto. Sério, é o tipo de silêncio que você nunca ouviu na vida.

O fim de tarde foi coroado com um piquenique montado pelo guia, com direito a empanadas, frutinhas e a companhia da lua já aparecendo no horizonte enquanto o sol se despedia.

Dia 2: Valecito, ônibus abandonado e lagunas escondidas

Segundo dia e a gente já sentindo o clássico do deserto: o ar seco de verdade te deixa com a garganta e o nariz ressecados de madrugada, então prepare o espírito. Saímos cedo para o Valecito, uma espécie de mini Vale da Lua, com um mirante de onde dá pra ver vulcões, incluindo um ainda ativo, e formações rochosas cobertas por uma mistura de sal e enxofre que parece neve.

Uma parada curiosa foi um ônibus “abandonado” no meio do nada. Ele ficou ali porque, até 1995, existia uma mina de sal na região, e o ônibus servia de refeitório improvisado para os mineradores, sem motor nem bancos, só a carcaça mesmo.

À tarde fomos para as Lagunas Escondidas, cerca de 50 minutos de trajeto. Ali a água tem quase 20% de concentração de sal, mais salgada até que o Mar Morto, e você simplesmente flutua sem esforço nenhum. A água está a 9 graus (achamos que “gelada” era eufemismo, era gelo puro) e o limite de permanência é de 20 minutos, porque o sal ressequecia a pele. Valeu cada segundo, e depois teve almoço com vinho pra aquecer o corpo.

Dia 3: Gêiseres do Tatio e o vilarejo de Machuca

Esse foi, sem dúvidas, um dos dias mais intensos. Acordamos de madrugada pra chegar nos gêiseres com o nascer do sol. A temperatura bateu -11°C e chegou a -15°C em alguns momentos. O campo geotérmico El Tatio fica a 4.320 metros de altitude e é o terceiro maior do mundo, com cerca de 80 gêiseres, o maior do hemisfério sul.

A água ali entra em ebulição a 85 graus (por conta da altitude, bem menos que os 100 graus do nível do mar), e a área é demarcada com pedras que não podem ser ultrapassadas, é perigoso de verdade. O vapor formando paredões brancos contra o sol nascente é uma das cenas mais bonitas que já vimos. Luva térmica é obrigatória, luva comum simplesmente não segura esse frio.

No caminho de volta o guia apontou o vulcão Láscar, ativo, que em 1995 entrou em erupção com tanta força que as cinzas chegaram a fechar o aeroporto de São Paulo (isso porque tanto o Atacama quanto São Paulo ficam alinhados ao Trópico de Capricórnio). A última erupção de cinzas registrada foi em 2023.

Paramos em Machuca, um vilarejo de apenas 10 habitantes, onde experimentamos carne de lhama grelhada na hora, servida com cebola e um molho bem temperado. Achamos surpreendentemente saborosa, uma carne fibrosa mas macia, por cerca de 5.000 pesos (uns R$ 30). Vale muito a experiência.

Dia 3 (continuação): lagunas Cejar, Piedra e Tebinquiche

No mesmo dia, ainda emendamos as lagunas Cejar (não é possível se banhar ali, por causa do sal acumulado e da presença de flamingos) e a Laguna Piedra, essa sim própria pra banho, com água a 9 graus mas um pouco menos salgada que a Cejar. Terminamos em Tebinquiche, um espelho d’água impressionante, com uma placa que fala sobre os microrganismos daquela água, considerados a origem da vida. Antigamente as pessoas tomavam banho ali, hoje o local é preservado. Fechamos o dia com hambúrguer preparado no próprio veículo e o pôr do sol nos Ojos del Salar, uma lagoa de água doce onde antes o pessoal se lavava depois do banho salgado.

Dia 4: Termas de Puritama, o refresco da vida

Depois de dois dias de água gelada, finalmente água quente. As Termas de Puritama ficam numa meia hora de trajeto e têm oito piscinas naturais com temperatura acima de 20 graus, podendo chegar a 30. Existem duas formas de chegar até elas: um trekking de cerca de 2 horas, ou (a opção que escolhemos, sem vergonha nenhuma) ir direto de van e descer apenas 500 metros até o ponto de encontro.

Depois do banho, teve ceviche, milho peruano, espetinhos de camarão e um prato de macarons. Nesse dia conhecemos a Ana e o Thiago, outro casal brasileiro que virou companhia pro resto da viagem. Brasileiro encontrando brasileiro no meio do deserto é festa garantida.

Vale da Lua e Vale da Morte

O Vale da Lua é, sem exagero, um dos pontos altos da viagem. A cada curva do carro a paisagem muda por completo. Fizemos uma caminhada até o ponto mais alto, cansativa por causa da altitude, mas a vista lá de cima compensa cada passo ofegante.

Ali perto fica o Vale da Morte, com um contraste incrível entre rocha e areia, região que antes fez parte do oceano e hoje é repleta de minerais. Uma parada especial é a formação chamada Três Marias, batizada por um sacerdote que viu naquelas pedras a imagem de três mulheres rezando. Hoje restam só duas, a terceira desabou há anos. E não é força de expressão dizer que aquilo parece Marte: a região é tão parecida com o planeta vermelho que a NASA já fez testes de equipamentos por ali.

Piedras Rojas e as lagunas altiplânicas

Piedras Rojas leva esse nome por causa do ferro presente nas rochas, que dá aquele tom avermelhado. Dali seguimos numa caminhada de meia hora até as lagunas altiplânicas de Águas Calientes, alimentadas por água que nasce quente das montanhas mas esfria ao longo do trajeto.

No caminho, uma parada na linha do Trópico de Capricórnio, com trilhas que se acredita terem sido usadas pelos incas. Seguimos até a Laguna Miscanti, cujo nome em língua indígena significa “morada dos sapos”, e a Reserva dos Flamencos (Laguna Miñiques), que segundo a lenda local era uma lagoa só até um vulcão próximo entrar em erupção e dividi-la em duas. O guia também contou uma história triste: picnics costumavam ser feitos ali até gaivotas começarem a roubar comida das pessoas e, depois, passarem a atacar ovos de aves locais. Hoje as refeições não são mais servidas nesse ponto, por respeito ao ecossistema.

O passeio noturno: observação das estrelas

Esse foi um presente inesperado. O passeio astronômico só acontece em noites sem lua cheia, e por coincidência de datas a gente achou que não fosse rolar. Mas deu certo. Cerca de 60% dos observatórios astronômicos do mundo ficam no Atacama, por conta do céu praticamente sem nuvens 365 dias por ano e quase nenhuma poluição luminosa. A vista a olho nu, sem qualquer equipamento, já é de outro mundo. Nenhuma câmera de celular faz jus ao que se vê ali.

O dia livre: conhecendo São Pedro de Atacama a pé

Reservamos um dos sete dias só pra curtir a cidade com calma. A manhã começou com um café da manhã típico da hospedagem (bem rústica, mas caprichada, com presunto, queijo, geleias e ovo preparado na hora), e à tarde saímos pra caminhar pela Rua Caracoles.

É ali que ficam a maioria das lojinhas de artesanato, com direito a chaveiros e bonecos de lã em formato de lhama (a gente não resistiu e trouxe um pra casa, claro, lembrando do Fred), ponchos, gorros e cachecóis bem quentinhos por preços justos. Pagando em dinheiro costuma sair mais barato em quase todo lugar.

Uma parada obrigatória foi a sorveteria Babalu, onde experimentamos sabores tradicionais e outros bem locais, como o de rica rica (uma planta usada tradicionalmente para dor de estômago, com um gosto herbal e cítrico ao mesmo tempo) e floresta negra. As porções são generosas, nada a ver com aquelas bolinhas mínimas que às vezes pegamos por aí.

Onde comer: o restaurante Adobe

Pra fechar o dia livre com chave de ouro, fomos jantar no Adobe, indicado por várias pessoas como o melhor restaurante do Atacama. O espaço é enorme, rústico, com mesas comunitárias e uma lareira que aquece o ambiente nas noites mais frias. O cardápio é extenso, com pratos tradicionais como o “pobre” (proteína à escolha sobre batata frita, cebola caramelizada e ovo frito), além de massas, carnes e opções veganas.

Os preços são mais salgados que a média da cidade (um filé rústico saía por cerca de R$ 167 na cotação da época), mas a experiência valeu. A sobremesa de torta três leites foi daquelas de fechar os olhos, e ainda ganhamos de brinde uma maçã caramelizada flambada, cortesia da casa.

Como organizar sua viagem ao Atacama

A gente sabe que depois de ler tudo isso a vontade de ir aumentou, então vamos direto ao ponto de como fechar os passeios. Fizemos a maioria dos nossos tours com a Ayllu, uma agência física de São Pedro de Atacama que nos atendeu de um jeito excepcional. O diferencial dela é trabalhar com grupos reduzidos, de no máximo 10 pessoas, e escolher horários e pontos alternativos pra fugir da multidão das agências maiores. Se exclusividade é o que você busca, é a recomendação número um.

Pra quem prefere fechar tudo já de casa, com liberdade de cancelamento e comparação de roteiros, deixamos abaixo dois parceiros que a gente confia:

O que levar na mala

  • Roupas em camadas (segunda pele, blusa térmica, jaqueta corta vento)
  • Luva térmica de verdade, não a convencional
  • Protetor solar facial e labial
  • Sunga ou biquíni pra lagunas e termas
  • Calçado confortável pra caminhadas em altitude
  • Garrafinha de água reutilizável
  • Dinheiro em espécie (pesos chilenos)

Viaja pelo Aeroporto de Guarulhos?

Use o código PROGRAMAP2 na hora de reservar sua vaga no Airport Park no site oficial e garanta 10% de desconto no estacionamento do Aeroporto de Guarulhos. É o cupom que a gente do Programa Para Dois disponibiliza pra quem acompanha nossas dicas de viagem, e é o mesmo estacionamento que a gente usa nas nossas próprias viagens.

Cupom de Desconto no Airport Park
PROGRAMAP2 (10% off)

O que ficou dessa viagem

A gente entrou no Atacama achando que já tinha visto de tudo em viagem. Saiu de lá lembrando que ainda existe muita coisa nova pra descobrir, e que às vezes ela tá bem mais perto do que a gente imagina. Foram sete dias de extremos, água a 9 graus e água a 85 graus no mesmo dia, calor de tarde e -15 graus de madrugada, silêncio absoluto e o barulho de um gêiser fervendo. Se você também se apaixonar por esse tipo de contraste, o Atacama tá esperando.


Este post contém links de afiliados da Civitatis e do Get Your Guide. Ao fechar seu passeio por eles, você não paga nada a mais e ainda ajuda a manter o Programa Para Dois no ar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *